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Acelerações na Arte Contemporânea
24/11/2007

A arte contemporânea faz da reconstrução do tempo vivido um território de experiências, inovação e reflexão. Depois do “fim da história”, a aceleração digital de imagens, percepções e linguagens esfacela o espaço, que se torna líquido. Resta ao artista a esperança de provocar nossa carência de narrativas, instaurando novos tempos nos não-lugares. Leia a seguir a entrevista com o Curador do Centro Cultural Bradesco no Second Life, Gilson Schwartz, comentando os eventos transmitidos em outubro.

Colaborativos – O Simpósio Internacional de Arte Contemporânea aconteceu no Paço das Artes uma semana depois do V Congresso de Estética e História da Arte da USP, nos dois casos com transmissão ao vivo pelo Centro Cultural Bradesco. Quais as propostas curatoriais em jogo?
Schwartz - Há uma clara proximidade física, o fato de que boa parte do meu tempo acontece no espaço da USP, uma Cidade Universitária que tem já na entrada um Paço das Artes voltado para a Arte Contemporânea, com fortes pendores digitais. O Paço tem sido também uma espécie de “câmara escura”, caixa-preta em meio a ruínas logo ali na entrada do campus Butantã da Universidade de São Paulo. Daniela Bousso, à frente do Paço das Artes e de outras iniciativas marcantes da arte contemporânea brasileira e internacional, é uma amiga que em vários momentos abriu meus olhos (e outros sentidos) para as novas formas da arte. Em registro espacial e histórico muito próximos está a convivência com Elza Ajzenberg e, mais remotamente, o contato com o próprio Mario Schenberg na USP. Na semana passada, participando de uma mesa-redonda com Kátia Canton na ECA-USP, vimos e ouvimos uma síntese da arte contemporânea, em especial da produção brasileira. Nela, destaca-se a questão da aceleração do tempo que no espaço digital cria novas formas de amnésia, mobilizando artistas-cidadãos a recuperar, por meio do criar arte e expressão, sentidos para as nossas histórias pessoais e coletivas. Há portanto um horizonte comum à agenda do programa inter-unidades de história da arte e estética da USP e à programação do Simpósio promovido pelo Paço das Artes.

Colaborativos - A sua convivência física, a sua presença tangível no campus da USP abre portanto possibilidades de digitalização de conteúdos em tecnologia, conhecimento e cultura?
Schwartz - É natural que ao assumir a responsabilidade de Curador do Centro Cultural Bradesco eu procure me amparar nessa memória de um espaço em que (con)vivo há 30 anos. Isso torna ainda mais impactante, na minha própria sensibilidade, a provocação do II Simpósio Internacional sobre Arte Contemporânea, que articula o surgimento de novos espaços com transformação de nossa relação com o tempo. Mas não se trata apenas de trazer aquilo que está acontecendo para o canal digital inédito, o Second Life, para o compartilhamento desses conteúdos. O desafio é ao mesmo tempo o de colocar o próprio Second Life na agenda do fazer artístico contemporâneo, entendo que a missão do Centro Cultural Bradesco é também o de fazer parte deste circuito, ser imanente a ele e não apenas um “big brother” cumprindo a função meramente técnica de plugar e transmitir. A própria transmissão faz parte da agenda.

Colaborativos - Você poderia dar um exemplo mais concreto dessa convergência de agendas entre essas várias curadorias, na USP, no Paço das Artes, no Centro Cultural Bradesco, qual é afinal o horizonte conceitual que permite esse alinhamento, essa situação sintonizada?
Schwartz - O ícone dessa convergência é uma intelectual, mulher de carne e osso que ilumina com seu movimento por instituições, países e “corpos” a emergência de uma modernidade pós-humana: Lúcia Santaella. Professora da PUC-SP e da EAESP-FGV-SP, Presidente da sociedade internacional Charles Sanders Peirce, líder do programa de Tecnologias da Informação e Design Digital (TIDD-PUC-SP), Santaella lança neste Simpósio uma obra fundamental para a compreensão não apenas da arte contemporânea, mas da situação contemporânea incluindo nela a emergência dos hibridismos digitais. Sob sua influência e estímulo tenho desenvolvido um trabalho de pesquisa, teoria e prática que alcunhei “iconomia”. Lúcia Santaella integra também o Conselho Curador do Centro Cultural Bradesco no Second Life, um privilégio e uma oportunidade para levar a um número ainda maior de cidadãos o conhecimento e a sensibilidade dessa grande pensadora.


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