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Marketing, Jornalismo e Sociedade – um acordo possível
28/11/2007


Copyright O XIS DA QUESTÃO - 22/06/2007 Anteontem, escrevi nesta coluna: “Nunca como agora o marketing e a notícia andaram tão próximos e interativos. Na política como nos negócios. Nas religiões como na ciência. Na cultura como nos esportes de alta competição. Em qualquer desses campos, e em outros, os acontecimentos noticiáveis são cada vez mais cuidadosamente planejados e controlados pelos saberes e poderes estratégicos do marketing, que transformam em ações táticas os fatos a serem noticiados.” Sobre as imbricações entre Marketing e Jornalismo, que motivaram o texto anterior, postado dia 20/06/07 (“Jornalismo e Marketing de mãos dadas”), apresento, hoje, algumas idéias extraídas da palestra intitulada “Marketing, Jornalismo e Sociedade, um acordo possível”, que fiz no IV Congresso Brasileiro de Comunicação Social, realizado no Recife nos dias 14 a 16 de junho, pela Faculdade Maurício de Nassau. Eis as idéias: Sobre Sociedade * Apesar de constituída por pessoas, grupos e instituições concretas, a Sociedade é um ente abstrato, situado no espaço da Vida Social. E por Vida Social se podem entender os arranjos, sempre provisórios e dinâmicos, resultantes das relações, organizadas em conflitos e acordos, entre os sujeitos que compõem o TODO social. * Trata-se de uma complicada imbricação de diversas ordens, em movimentos ora convergentes ora divergentes, ora conflitantes ora complementares, ora de aproximação ora de afastamento. Mas sempre interativos. * Esses movimentos animam e estruturam o ente abstrato a que chamamos de Sociedade. E o que lhes dá sentido e energia é uma lógica produzida por expectativas, em torno de algo a que na Sociologia se chama de “relações esperadas”. Ou “relações ideais”. * No substrato da Sociedade existe, portanto, dando-lhe vida, um fenômeno de idealização do que deve ser feito. E a isso alguns pensadores da Sociologia e da Antropologia – entre eles o já falecido (em 2002) Raymond Firth, nascido na Nova Zelândia, com carreira acadêmica realizada em Londres – chamam “Padrões de Expectativas”, em torno dos quais se estruturam e se movimentam as sociedades organizadas. * No caso da Sociedade brasileira, o “Padrão de Expectativas” fundamental está definido em preceitos constitucionais que estabelecem e sistematizam a idealização do que deve ser feito. Exemplo: Artigo Primeiro: (...) O Estado Democrático de Direito tem como fundamentos: I) A Soberania II) A Cidadania III) A dignidade da Pessoa Humana IV) Os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa V) O pluralismo político Artigo Terceiro: (...) São objetivos fundamentais da República: I) Construir uma sociedade livre, justa e solidária; II) Garantir o desenvolvimento nacional; III) Erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais Artigo Quinto: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...) * Mas não basta ter expectativas e ideais. Há que adequar as ações às normas derivadas das expectativas e dos ideais, ou em função dos ideais e das expectativas criadas. O agir social é que verdadeiramente dá vida e forma às Sociedades Organizadas. * Esse é o jogo das Relações Sociais, um fascinante jogo de conflitos e acordos, por meio do qual e no qual fazemos Democracia, realizamos Cultura, construímos Cidadania e avançamos na Civilização. * Ao se falar de Sociedade fala-se, pois, de uma dinâmica constante e contínua de contradições e embates entre os ideais das expectativas e as limitações da realidade. E esse é o cenário que impõe às relações sociais formas de conflito, porque sempre se luta por alguma coisa. Luta-se por pão e emprego; por luxo e posição social; por fama, poder, espaço e dinheiro. Luta-se por amor, por terra, por mentes. Luta-se para mudar as coisas, luta-se por conservá-las. * Ontem, hoje, amanhã, pelo Jornalismo se espalham ao mundo, nas formas da linguagem jornalística, e para as repercussões que convêm à sociedade, os fatos materiais, os significados, os entendimentos e as polêmicas dessas lutas. Que vêem a ser, afinal, os conflitos da construção do presente. Conflitos que nutrem o Jornalismo mas que, ao mesmo tempo, do Jornalismo dependem. * Nas democracias e nos processos e mecanismos da cultura, os conflitos têm regras. A competição é regulada por normas e razões de ser. Porque o objetivo final é o acordo. E nos acordos, sempre transitórios, se realizam os avanços. Sobre Marketing * Eis aí o território do Marketing, na vocação que o justifica e lhe dá força crescente: a de lutar por posições, por ganhos, por avanços relativos, em confrontos com competidores. * Nas sociedades contemporâneas, o Marketing se tornou a mais poderosa ferramenta a serviço de quem fabrica e/ou distribui. Sob esse ponto de vista (o da fabricação e distribuição de produtos), Philip Kotler, o teórico americano do ramo de maior prestígio no mundo, diz que a principal função do Marketing é a gestão da procura. * A visão e o entendimento que Kotler propõe para o marketing da competição mercadológica, também se aplica, com adaptações, ao Marketing desenvolvido em esferas de disputas menos materiais, como a política, a cultura, a ciência e a religião. * Em seu mais recente livro (Marketing para o século XXI, Lisboa, Editorial Presença, 2006), diz Kotler que, para bem gerenciar os diversos tipos de procura, o Marketing se organiza em três vertentes especializadas, complementares entre si: a vertente estratégica, a vertente tática e a vertente administrativa. * Na vertente estratégica, o Marketing é capaz de ver ao longe, para definir, fixar e realizar objetivos, a partir de um lugar próprio, definido e assumido, no espaço mais amplo onde também atuam os competidores. O Marketing estratégico produz e gerencia, portanto, um saber capaz de identificar, avaliar e aproveitar oportunidades nos cenários da competição, adequando-as aos objetivos da entidade a que serve – e vice-versa. Mas um saber capaz, também, de elaborar as argumentações que movam as mentes do público consumidor (de produtos e/ou idéias), para que diferenciem, das outras, a marca ou “a verdade” trabalhada. * Faz parte das competências do saber estratégico a capacidade de planejar e coordenar as ações táticas que devem ser realizadas na dimensão do tempo, isto é, com oportunismo. E ao Marketing tático cabe, então, a tarefa operacional de realizar, no tempo certo e com o direcionamento adequado, as ações táticas previstas e determinadas pelo planejamento estratégico. * Ao Marketing administrativo está reservada a responsabilidade de prever e disponibilizar os meios necessários à realização bem sucedida das ações táticas. Porque sem ações táticas bem sucedidas não se alcançará o sucesso. * Assim, ao Marketing tático não devem faltar recursos (humanos, financeiros, tecnológicos, operacionais) para ações como as de captar e distribuir informações; produzir e articular fatos, números, análises e opiniões para formatar e combinar conteúdos discursivos; socializar esses conteúdos discursivos pelos meios e pelas diversas linguagens de comunicação social. * Atualmente, e em tendência que parece irreversível, o Marketing age e interage na Sociedade principalmente pela via jornalística. Em todas as suas áreas, formas e manifestações. Porque as tecnologias de difusão garantem hoje à notícia alcance universal, na dimensão temporal da instantaneidade. O que significa dizer que, para efeitos do relato dos acontecimentos, deixou de existir, no plano físico, o distanciamento entre o local dos fatos e os públicos interessados. E, no plano da difusão, desapareceu o intervalo entre o acontecimento e a notícia. Ou seja: o acontecimento se dá e se realiza plenamente ao ser noticiado; a notícia se constrói e se difunde no momento em que o acontecimento se materializa. * Agir e interagir no mundo e com o mundo pela notícia tornou-se a mais importante e eficaz habilidade tática do Marketing – na política como nos negócios; nos variados campos das idéias como nos muitos cenários de exercício e afirmação de poder. Sobre Jornalismo * O Jornalismo tornou-se, assim, o espaço público preferencial para os embates – locais, regionais, nacionais, internacionais, econômicos, financeiros, ideológicos, políticos, geopolíticos, religiosos, culturais, tecnológicos... – que, materializados em fatos noticiáveis, e na dimensão do presente, reelaboram continuamente a sociedade e a realidade. * A escolha do Jornalismo, como espaço público preferencial, resulta da combinação de duas variáveis que a revolução tecnológica e as suas decorrências culturais impuseram às relações sociais e aos padrões de expectativas que movem a Sociedade, no mundo informacional de que nos fala Castells: a) Os conflitos passaram a ser discursivos. E os discursos, embutidos na significação dos fatos, precisam de meios e métodos de socialização confiáveis, para que se tornem eficazes. b) A sociedade confia na linguagem jornalística. Acredita nela. E com ela se relaciona apoiada na expectativa da veracidade. E porque assim deve ser, pelo relato e pelo comentário jornalísticos os cidadãos se informam, se esclarecem. E se capacitam para as relações sociais e os embates do seu próprio interesse. * A natureza veraz da linguagem jornalística é condição de sucesso das relações sociais, na medida em que dela depende a confiabilidade do jornalismo-espaço público, para o qual convergem todos os conflitos importantes da atualidade. E para o Jornalismo convergem os conflitos importantes da atualidade porque a linguagem jornalística tem, também, reconhecida aptidão para produzir a divergência, alimentar a polêmica e socializar a elucidação. * Além da Veracidade, outros quatro predicados de linguagem robustecem o Jornalismo, como espaço público confiável: - A capacidade de captar, compreender e narrar Conflitos; - O compromisso com Valores Éticos universais; - A sedução das Formas de dizer e apresentar; - A pedagogia das Relevâncias, que dá evidência e clareza ao que é mais importante. Conclusão * O crescimento e a agressividade do Marketing, como área de saber e poder estratégicos nas organizações, podem constituir ameaças à linguagem jornalística, devido ao controle competente que os produtores de acontecimentos têm hoje sobre os mecanismos da Notícia. * Mas não interessa à Sociedade, nem ao próprio Marketing, a destruição da linguagem jornalística. Por isso, é preciso preservar nela os predicados e atributos que a caracterizam e lhe dão importância social. Por, pelo menos, duas boas razões: 1) O Jornalismo pertence à Sociedade, como parte importante do projeto ético que nela inspira e organiza o Padrão de Expectativas; 2) O Direito à Informação, razão de ser do Jornalismo, é um bem e uma prerrogativa dos cidadãos. Faz parte das conquistas da Cidadania. E não deve ser fraudado, nem pelo Marketing nem pelo Jornalismo. 
 
 



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